Tráfico recruta 800 ‘soldados’ na Zona Norte de Niterói

Policiais Militares fizeram incursões durante a semana nas comunidades em pé de guerra para impedir novos confrontos entre traficantes. Foto: Maurício Gil

Quadrilhas rivais - ADA e Comando Vermelho - intensificam guerra que impõe medo aos moradores com intensos tiroteios e até explosões de granada durante a madrugada

Tiroteios em Niterói têm tirado o sono de moradores da Zona Norte da cidade, que estão sendo obrigados a conviver com o barulho dos disparos de armas de grosso calibre e de explosões de granadas e o medo de balas perdidas quase toda madrugada. Os confrontos fazem parte da guerra entre facções criminosas rivais pelo controle dos pontos de venda de drogas nas favelas.
De um lado, o Comando Vermelho (CV) tenta expandir sua hegemonia na Zona Norte, onde a facção já controla 16 das 22 comunidades, entre elas a Vila Ipiranga, no Fonseca, considerada uma das mais perigosas pela polícia.
Do outro, a rival Amigos dos Amigos (ADA), que tenta aumentar seu espaço de atuação, atualmente restrito aos morros Boa Vista e Marítimos. Apenas assistindo à disputa, a facção Terceiro Comando Puro (TCP), pelo menos por enquanto, estaria se contentando em manter seu domínio sobre os morros da Palmeira, Eucalipto, Pimba e Coréia, onde não há registros de grandes tiroteios.
Levantamento do Setor de Inteligência (SI) do 12º BPM (Niterói) estima que em pelo menos 16 comunidades onde o tráfico tem maior expressão, como Vila Ipiranga, Complexo do Caramujo, Nova Brasília e Marítimos, entre outras, as facções já tenham recrutado, juntas, pelo menos 800 soldados do tráfico, boa parte deles armados com granadas, pistolas, fuzis e outras armas de grosso calibre. Onze delas estariam sob o domínio do CV, três delas sob controle do TCP e duas da ADA.
Para expandir seus domínicos e abastecer seus “exércitos”, traficantes nas últimas semanas têm intensificado as ofensivas contra os rivais. Comunidades como as do Morro do Serrão, Juca Branco e Abacaxi e Boa Vista têm se tornado palco de constantes confrontos bélicos.
De acordo com o presidente do Conselho de Segurança da cidade, Leandro Santiago, as investidas rivais são antigas e acontecem principalmente nas regiões do Fonseca e Engenhoca. Neste último bairro, a guerra acontece principalmente entre bandidos da favela Nova Brasília (CV) e do Morro dos Marítimos (ADA). Segundo ele, a Zona Norte possui 22 comunidades onde o tráfico de drogas está presente e a delegacia responsável pela circunscrição, a 78ª DP (Fonseca) encontra-se com seu efetivo reduzido, com 30 policiais, impossibilitando ou dificultando investigações sobre atuação de criminosos nestas localidades.
“É inadmissível que apenas uma delegacia fique encarregada de investigar mais de 20 comunidades. A Polícia Civil precisa atender a solicitação dos moradores do Barreto, por exemplo, e reativar a 80ª DP. Essa luta é antiga. Precisamos que a delegada Martha Rocha observe com atenção esta demanda. A reativação da delegacia do Barreto iria amenizar a situação, já que passaria a investigar pelo menos cinco destas comunidades”, argumenta.
Ele lembra ainda que o fortalecimento do tráfico de drogas pode contribuir para uma maior incidência criminal na Zona Norte. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado (ISP), registrou 117% de aumento do roubo de carros; 103% de aumento no número de roubo de pedestres e 31% de aumento no número de roubos a coletivos na região, quando comparado o mês de junho deste ano com o de 2012.
De acordo com levantamento da PM, o tráfico de drogas possui uma hierarquia muito extensa, além dos traficantes que são os chefões ou donos dos morros, um grupo trabalha para manter o abastecimento de drogas e contenção, evitando e avisando a aproximação da PM o que dificulta o trabalho.
“Não há como mensurar o tamanho do grupo que atua em cada comunidade. Mas o que sabemos é que a Zona Norte é o local mais crítico de Niterói, onde há maior incidência de registros criminais”, confirma o comandante do 12ºBPM (Niterói), tenente-coronel Gilson Chagas, que na última semana desencadeou operações em várias favelas da Zona Norte para reprimir o tráfico.
No último fim de semana, uma disputa  entre ADA e CV pelo controle dos pontos de venda de drogas no Morro Juca Branco assustou moradores do Fonseca. O tiroteio havia deixado duas pessoas baleadas.

Por: Ruy Machado    O FLUMINENSE