Complexo B: Mortes de Manuella e Linete custaram R$ 100 mil

“Eu não quero levantar falso testemunho, mas tem uma pessoa que é um psicopata, que é o ex-marido da minha irmã”. A desconfiança do empresário Beto Neves, proprietário da grife Complexo B, referindo-se ao advogado Michel Salim (ex-marido de sua irmã) durante o velório da mãe, Linete Loback, de 65 anos; da sobrinha, Manoela Neves, 22 (enteada de Salim); e do noivo dela, Rafany Pinheiros, 23, no fim do mês de agosto, se materializou em pouco mais de um mês e meio depois da tragédia da Travessa da Cruz, no bairro de Venda da Cruz. 

Na manhã de sexta-feira, a Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG) praticamente elucidou o bárbaro crime que, segundo a polícia, teria sido ‘encomendado’ por Michel Salim, que desembolsou R$ 100 mil para ‘financiar’ a tragédia. A motivação do triplo homicídio teria sido as constantes brigas judiciais entre o advogado e a ex-mulher (mãe de Manoela), Rosilene Neves, ou seja, vingança contra ela atingindo-a através da morte da filha dela (sua ex-enteada) e da mãe. As penas somadas para cada um dos acusados de envolvimento no crime, segundo a polícia, podem ultrapassar a um século de condenação.
A especializada desbaratou toda a trama e prendeu, na manhã de sexta-feira, dois dos quatro acusados. Romero Gil da Costa, segurança particular de Michel Salim, - “contratante” do atirador - e Pablo Jorge de Medeiros já estão atrás das grades. Policiais afirmam que Michel Salim está sendo considerado como foragido, pois como os demais tem mandado de prisão expedido pela Justiça. Ainda na madrugada, policiais tentaram localizar Salim em dois endereços, um deles seria a casa de sua amante. No entanto, não foi localizado.
Os agentes ainda estão apurando a participação de um quarto acusado, que teria dado cobertura a ação de Pablo no interior da residência de Beto Neves, quando este executou as três vítimas a tiros. Com retrato falado divulgado pela polícia, ele seria moreno claro, forte, com cerca de 26 anos, e teoricamente se chamaria “Marcos”, e seria também envolvido com o tráfico no Morro do Serrão.
“O mandante é o Michel, que teria oferecido R$ 100 mil aos demais envolvidos. Precisamos encontrar mais uma pessoa (Marcos). O Pablo alegou que teria levado o atirador, mas achamos que foi ele que entrou na casa. A dupla teria sido contratada por Romero, segurança de Michel Salim. No dia do crime, eles ficaram esperando o momento certo para abordar as vítimas, invadirem a residência e executar as vítimas. O que o segurança disse foi que Michel queria inicialmente dar uma lição na Rosilene (ex-mulher). Com as constantes perdas de ações judiciais para a ex-mulher (não tivemos acesso a esses processos, devido ao segredo de justiça), Michel teria tomado a decisão de encomendar as mortes”, explicou Wellington Vieira.
Ainda de acordo com a DHNSG, por conta do embate judicial entre Michel e Rosilene, a justiça já havia inclusive determinado a chamada “visita vigiada” do advogado às suas duas filhas, de 10 e 11 anos de idade. “Nessas visitas, a ex-enteada Manuella enfrentava Michel, acusando-o de maltratar as crianças. Em certa ocasião chegou chamá-lo de psicopata. Foi inclusive por conta desse enfrentamento que Manuella teria decidido ir morar com a avó. Achamos que essa teria sido a motivação do crime. Todos os acusados vão responder por três homicídios qualificados, ou seja, pelas qualificadoras (agravantes): motivo torpe, emboscada, sem chance de defesa. Procuramos por Michel Salim em vários locais, mas ele não foi encontrado, por isso está sendo considerado foragido da Justiça, pois existem provas contundentes contra ele”, reafirmou o delegado.
Vale relembrar que dias após o crime tanto o ex-padrasto de Manuella, quanto seu segurança compareceram na delegacia para prestarem depoimento, sendo que o primeiro, representado pelo renomado advogado Paulo Ramalho, alegou inocência e no dia do fato teria inclusive programado uma viagem. Com base em informações fornecidas por Pablo, a polícia confeccionou um retrato-falado do quarto envolvido no crime, mas existe a possibilidade dele ter participado sozinho no crime. A principio ele se defendeu, alegando que apenas havia dirigido o carro que transportou o atirador. Ainda na manhã de ontem, o empresário Beto Neves compareceu na DHNSG e explicou que seu sentimento diante do desfecho das investigações na verdade seria um misto de alívio e amargura.
“É um alívio parcial. Ainda tem um elemento que falta ser identificado e preso. A polícia tem as duas pontas, o mandante e o executor. Espero que seja fechada a investigação, esse círculo, para vida poder continuar. É um sentimento de alívio e de dor ao mesmo tempo. A cena do crime ainda me vem na cabeça. É muito ruim”, declarou o proprietário da grife Complexo B.