ESQUECIDA ALAMEDA



Um dia eles já foram imponentes, abrigaram barões e parte da realeza e nos últimos tempos se encontram abandonados, apresentando sinais de desgaste e até correndo o risco de desabar. Ao longo dos quatro quilômetros da Alameda São Boaventura, os casarões ainda chamam atenção, mas depredados, colocam a sua rica história a cargo de ratos, insetos e até usuários de drogas.
Uma via de importante ligação entre a antiga Capital e as cidades interioranas, a Alameda São Boaventura sempre teve um papel importante na história e era valorizada. Com a expansão das cidades e o seu afastamento da chamada zona sul, perdeu destaque e virou apenas uma rota de passagem, sempre congestionada e impregnada de prédios. O surgimento de favelas em sua extensão também colaborou para desvalorizar o metro quadrado e tirar do bairro o título de área nobre.
Doze casarões ainda resistem, apesar de não serem mais o foco dos proprietários nem viável para os governantes. De acordo com o presidente do Círculo Monárquico Dom Pedro II de Niterói, o pesquisador e professor Francisco Tomasco de Albuquerque, diversos fatores contribuíram para a perda de status do bairro. 
“O trânsito na Alameda São Boaventura ficou cada vez mais carregado com o passar dos anos. Sem falar do crescimento de diversas favelas no entorno da via. A falta de segurança pública também ajudou”, disse o professor, que alertou ainda sobre o aumento populacional. “Quanto mais se aumenta a população, mais você torna agudo os problemas. Quanto mais pessoas, mais comércio, mais carros, mais movimento e consequentemente, mais problemas”, completou ele.
As grandes estruturas não são tombadas, o que dificulta a manutenção dos prédios. Vizinha de uma dessas belíssimas construções abandonadas, a dona de casa Karina Scossia, de 27 anos, reclama. “A proliferação de roedores e insetos está insuportável. Sem falar na presença de usuários de drogas. Minha casa já foi invadida três vezes. Fomos à prefeitura, mas não achamos o proprietário da casa. Os vizinhos do outro lado resolveram mudar depois terem a casa invadida. Ninguém aguenta mais”, relata ela.
Além das belas construções, um antigo galpão também está em estado de abandono no bairro. Localizado na altura do número 1.067, no local podem ser vistos vários carros antigos em péssimas condições.
“Esse galpão já foi uma agência de carros. Agora o dono montou uma outra agência e usa essa aqui como depósito para todo o material que ele não quer mais. O problema é esse. Isso aqui virou um criadouro de mosquitos da dengue e ratos. E até moradores de rua tem utilizado o local para dormir. A situação para nós vizinhos é difícil”, afirmou o comerciante Luiz Santana.
Moradora antiga do Fonseca, Vilma Borges lamenta a situação das construções. “Fui criança aqui nesse bairro e vi essas casas em bom estado. Eram lindíssimas e eu, muito criança, dizia que um dia moraria em uma delas. É triste vê-las neste estado. Podiam virar museus contando a história das casas e até do bairro. Virar escolas, bibliotecas, só não pode permanecer dessa forma servindo de abrigo para usuários de drogas, criminosos e bichos. Além de poluir visualmente o bairro, causa a sensação de insegurança para nós moradores”, lamentou Vilma, que tem 69 anos e mora no bairro desde que nasceu. 
Apesar da ideia da população de que os locais devem ser utilizados para algo com finalidade cultural e educacional, Albuquerque explica que a mudança não é assim tão simples.
“É uma ótima ideia. A cidade é carente de opções culturais e mesmo que não fosse, cultura e educação nunca são demais. Porém, isso não é tão simples. Quem vai fazer? A prefeitura? Infelizmente eles não possuem o capital necessário para isso. Então eles acabam vendendo essas casas. Eles precisam de receita. Você não pode congelar uma cidade”, argumentou Francisco.

O PASSADO
Projetada pelo ex-prefeito João Pereira Ferraz, a Alameda São Boaventura também possui antigas estruturas que vêm sendo utilizadas e aproveitadas. Como o Palacete da Soledade, construído em 1944, onde funcionava a antiga sede da Fazenda da Soledade e a casa do poeta francisco José de Oliveira Viana, construída em 1911. No local foram mantidas a estrutura deixada por Oliveira Viana, como aposentos, móveis, objetos, livros, instrumentos de trabalho e objetos pessoais, destacando-se a biblioteca.
Toda a responsabilidade dos imóveis degradados é de responsabilidade dos proprietários. De acordo com a Defesa Civil Municipal, somente obras emergenciais podem ser realizadas por eles, para evitar um futuro desabamento. Caso isso aconteça, o imóvel é interditado e o proprietário notificado. Talvez essa seja a única chance para algo de bom acontecer a essas casas que estão largadas e esquecidas às margens da Alameda São Boaventura.